A entrega ao abismo

Amar, nada mais é, que se entregar a um abismo.
Sim, pois quando amamos, é como se sob nossos pés passasse uma rachadura, que tal qual uma falha geológica profunda, causa tremores e abalos, levando o chão a ruir. E em meio a essas ruínas, somos lançados nesse profundo vazio no que antes era uma existência firme.

Na veradade, todo esse tremor é bom. É bom quando decidimos nos entregar, pois amar nada mais é que, ao sentir o abismo se abrir, mergulhar de cabeça na magnitude de suas possibilidades.
É acreditar que, em determinado ponto, nossa vil existência desprovida de asas passará a ter o poder de voar e fluir pelos ares, no exato momento em que somos correspondidos nesse amor, antes solitário.

A nós cabe a escolha, sim, de nos entregar ao abismo ou nos agarrar às bordas, com medo da queda não ser amparada pelo vôo da correspondência.

Esse medo, esse eu não tenho mais. Pois o vôo é doce demais pra arriscar ser perdido assim.