Sonhos no sétimo andar

Aquele era um trabalho solitário, até um pouco duro, mas pagava as contas e, naquela pequena cidade, era melhor que nada.
Ela ia a cada um dos quartos, diariamente, arrumar camas, trocar toalhas e conferir o frigobar – rotina de hotel, coisa simples.
Como toda rotina, uma hora tudo parece incomodar, parece que nada mais encaixa direito. E aquela tarde quente, apesar do inverno corrente, estava assim.
Ela chegara à porta do 404, onde acabara de ser informada pelo rádio que o hóspede passara suas últimas horas na pequena cidade do planalto central. Entrou no quarto, tudo como de costume: cobertas reviradas, toalhas secando no banheiro, até aí, nenhuma novidade.
Trocou os lençóis e as toalhas, deixou tudo como novo para que o próximo hóspede se sentisse em casa no hotel conhecido como “o orgulho da cidade” e foi verificar o frigobar.
Para sua surpresa, em vez de encontrar itens faltando, encontrou uma cerveja esquecida pelo hóspede. A casa instruía a jogar qualquer comida ou bebida esquecida pelos hóspedes no lixo, e assim procederia: levantou o anel e abriu a latinha, se dirigindo ao banheiro do quarto.
Nos poucos passos até seu destino final, o cheiro do álcool, o calor e a rotina finalmente a venceram: por que desperdiçar uma cerveja gelada, nesse calor escaldante? Titubeou por alguns instantes, pensava no que poderia decorrer de seu ato rebelde. Mas o cansaço a venceu e o primeiro gole veio.
Uma sensação de torpor tomou conta de seu corpo, aquele torpor que nos toma de assalto depois de um longo dia de trabalho ao chegarmos em casa. E ela gostou muito daquilo.
Rapidamente, foi até a porta e olho pelo corredor: ninguém a acompanhara. Fechou a porta rapidamente e trancou de um só golpe.
Soltou seu corpo na cama, lentamente, enquanto sorvia o líquido gelado da lata. “São só alguns minutos”, pensou.
Logo, já tinha se livrado do sapato e das meias, enquanto deixada o ar que entrava pela janela passear pelos seus dedos massacrados pelo calçado e pelo peso de seu corpo. O torpor aumentava a cada instante. O inevitável estava prestes a acontecer.
O corpo se soltava com o álcool, a mente já perdida pelo que via na janela. Não tardou e o inevitável aconteceu: o sono se apossou de seu corpo e mente.
Foram turbilhões de sonhos, viagens a terras distantes, visitas de pessoas queridas e que há muito deixara em sua cidade natal para procurar por melhor sorte em outro estado – o que aparentemente não aconteceu.
Em seus sonhos, depois de mil loucuras, apareceu o galã da novela das 8. Sua felicidade era total em perceber que o homem da vez na mídia se apaixonara por ela, que não se fez de rogada e logo partiu pra cima dele, pulando em seus braços fortes…
…soou alto o rádio, desesperadamente. Rompendo sonhos, torpores, trazendo de volta à realidade a sonhadora camareira. O forte sotaque candango perguntava: “já terminou o 7o andar? Por que a demora?”
Era o fim de um sonho que povoaria sua mente pelo resto da semana: por que tudo que é bom dura pouco?

One thought on “Sonhos no sétimo andar

  1. Gostei do ritmo, gostei do contexto “simples” em que seu conto se passa. Afinal, enxergar para além do básico, para além do que os olhos vêem, é sempre um terreno mais do que interessante para explorar.

    Parabéns.

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