Série Visões: Renata Stort e Caroline Bohone




Nas minhas andanças fotográficas, fui ao Parque de Esportes Radicais, em São Bernardo do Campo, procurando por imagens de esporte amador. Encontrei a foto acima, uma visão de superação e alegria. (Veja mais aqui)

Esse primeiro post foi feito com a ajuda da Renata e da Caroline, amigas minhas, mas a idéia é trazer sempre pessoas diferentes, sem que uma saiba do estilo da outra, sem combinações entre elas, só a vontade de cada uma e o a sua própria visão.

Começamos o projeto com a Renata Stort, amiga de longa data, escritora e jogadora de futebol, dona do Eu Posso Voar!

Talvez eu fosse deficiente
Se eu não acreditasse que sou diferente
E que o mundo que eu acredito deveria existir em algum lugar
Nem que fosse dentro de mim
E foi aí que eu entendi
E que enquanto alguns sobrevivem
Eu apenas vivo
Porque as pessoas nascem para certas coisas nesse mundo
E eu, eu nasci para voar!


E com a sua visão, temos a Caroline Bohone, estudante de letras e professora, dona do Silabário da Poetisa, que mandou o seguinte texto:

Dikhotomía*

O que é acaso e o que é destino? O que é rotina, vicissitude, o que é uma quebra, uma
queda, a gota d’água? O limite entre as coisas que se opõem é sempre algo discutível,
constantemente rebatido. Há quem acredite que a vida esteja escrita em um livro místico
guardado a sete chaves no sétimo céu. Existe também a ideia de que nada ultrapasse o
desejo do acaso. Vive-se de efeito borboleta. Não obstante àquilo que cada um em seu íntimo preserve como crença, existe a realidade que se agita dia após dia, seja obra do destino ou afã da ocasião.

Perder as pernas num acidente, por exemplo. Já estava escrito num compêndio divino, ou foi simplesmente relatado no jornal da manhã? E é diante de um fato como este, que paramos estupefatos, catatônicos, buscando explicação. Hão de dizer do pobre rapaz o quanto era jovem e por isso não merecia tal ocorrido. Haverão de agradecer por ele não ter perdido a vida. As pernas pela vida. A troca é justa?

No entanto, não importa o quanto o momento nos exaspere. Se a vida se resumisse a este
ínterim, tudo bem. Contudo, o que fazer com o instante seguinte? Após o trauma, o susto,
o acidente, a medonha pintura que o destino emoldurou. A verdade é que a vida não está
tão intrinsecamente ligada aos fatos. Levar a vida talvez seja reagir a ela e aos seus inúmeros caprichos.

Pode ser que viver seja uma escolha. Assim como é persistir, ser teimoso. Provar para a vida quem controla quem, afinal. Escolher ler com as mãos, já que os olhos só enxergam o negrume de uma noite eterna. Optar por deslizar sobre rodas já que os pés não reconhecem mais a função para a qual foram programados. Sorrir e cantarolar sob o sol da cidade estalando no refletir das janelas azuis dos prédios, ao invés de maldizer o veranico em pleno inverno.

Ser e estar são escolhas, bem como é uma escolha o lugar aonde se quer chegar. Há quem escolha ficar parado. Porque é confortável, porque assim não há tropeço, nem arranhão.
Também não há vitória. Vencer ou perder, criar uma nova possibilidade ou repetir o que já
foi consumado, teimar ou resignar-se, aprender ou permanecer na ignorância, assim como
fazer ou não fazer, são parte do caminho cheio de bifurcações a que damos o nome de vida. Se acaso ou destino, de que importa? Mais importante é escolher para qual lado do muro pular.

* Do grego, a palavra em português se diz dicotomia, e é a relação entre dois opostos que se completam num sentido amplo. Por exemplo, dia e noite são opostos que coexistem formando a noção que se entende pelo período de vinte e quatro horas que formam o giro da terra em torno de si mesma.


E você, o que vê na foto? Quer participar do projeto? Deixe seu e-mail e o link para seu blog, álbum de fotos ou onde for que você deixe sua arte. Mas não se esqueça: imagens valem mais que mil palavras. Mas quem põe essas palavras, quem as cria, somos nós, que fazemos nossas visões.