Frustração Fotográfica: a foto perdida

Esse texto me procura tem algum tempo e nunca acaba escrito. Pois chegou a hora dele ganhar a luz…

Na última virada cultural, me armei da minha câmera e decidi ir ao palco do stand up, na Praça da Sé, que prometia ser muito bom e ter abertura de Danilo Gentili.
Cheguei lá na hora marcada no site do evento e descobri o que devia ter levado em conta antes: teríamos um belo atraso.
Já que estava ali, resolvi aproveitar e tirar algumas fotos, como essa:

Reaching her heart
O que não era de todo ruim. Decidi, com a minha fiel companheira, andar e procurar algo para comer. Andar com equipamento semiprofissional pendurado no pescoço numa praça que é moradia para muitas pessoas à noite é sempre uma aventura. Esse sentimento de insegurança acaba nos fazendo tomar atitudes super protetoras. E é aí que comecei a entender como a mesma cautela que te protege do sofrimento pode ser o que te limita uma nova experiência.
Andando pela praça, fui abordado por um homem, aparentando ter na casa dos 35 anos, maltrapilho e visivelmente alterado por álcool ou alguma droga. Ele perguntou o que eu fotografava e eu, limitado pela cautela, respondi monossilabicamente. Me pediu para que mostrasse as fotos no display da câmera, novamente neguei, já imaginando ser uma possível abordagem para um roubo. Numa terceira investida, ele pediu que o fotografasse. Eu e minha mulher dissemos que estávamos fotografando somente os shows e ele devolveu:
– As pessoas só fotografam o que é bonito. Ninguém quer saber da gente que é pobre, que mora na rua.
Me afastei dele com esta frase, e esta frase não saiu da minha cabeça desde então. Muitas vezes, na fotografia, nos preocupamos com o belo, com o que compõe bem uma imagem bonita. Pensamos somente na nossa “arte”, no resultado final.
Temos uma tendência frequente de nos esconder atrás da máquina e pensar que somos melhores ou mais sensíveis que os outros. Mas agora, vejo que isso é mais um mecanismo de defesa, um produto do medo embutido em nossas mentes, ou até um pouco de nossa timidez.
Até hoje, quando a mente vaga sozinha, me pergunto: por que será que eu não procurei entender o motivo pelo qual aquela pessoa veio até mim, procurando ser fotografado, ou somente alguma conversa? Só porque eu moro confortavelmente, tenho algum estudo e um equipamento caro para alguns padrões eu não posso aprender com alguém que, neste momento, não está num patamar de vida parecido com o meu?
Sinto essa como uma oportunidade perdida, o que eu chamo de frustração fotográfica. Não a foto perdida, mas a negativa da oportunidade de aprender ou explorar uma situação no momento em que esta se fez presente. E pelo simples misto de preconceito, medo e alguma timidez.
Será que reagirei diferente no futuro?