Ridicularidades do mundo corporativo moderno

Parando um pouquinho pra pensar, o mundo corporativo moderno é uma das coisas mais ridículas que se pode viver.

Pensa só: você é contratado pra implementar mudanças em um sistema. Porém, essas mudanças só podem ser implementadas se forem aprovadas pelo chamado "owner" de determinada funcionalidade.
Legenda: você só pode mexer no sistema se o Joãozinho deixar.
Eu entendo a necessidade e a ciência disso. Mas, no geral, o tal "owner" não faz a mínima ideia do que é o sistema, muito menos o que a mudança que foi pedida vai acarretar nele.
Aí, você recebe um SLA, um Service Level Agreement, que determina em quanto tempo essa mudança tem que ser implementada. E claro, é só uma forma de se colocar o "macaquinho" nas costas de outra pessoa. É isso mesmo, se lembra da propaganda daquela marca de tubos que tinha os miquinhos? Genial!
Legenda: Faz rapidinho aí. Se não depender de você, passa o macaquinho. Tira da sua b**da!
Aí você recebe aquele pedido de alteração gigantesco, sem sentido nenhum, já taxado como urgente. Parece até caso de polícia: vem com aviso, todo em vermelho, luzes piscando… Estou esperando ver o dia que o Datena vai aparecer na minha mesa pra anunciar o tal chamado urgente: "Põe na tela! Eu quero IBAGENS do chamado! Me dá IBAGENS!"
Legenda: Urgente é tudo aquilo que um idiota ficou sentado em cima por DIAS, deixou pra última hora pra te passar e quer que você se vire pra fazer em tempo recorde.
Mas no mundo corporativo, prazos são uma mera formalidade. Nada que esteja taxado como urgente, pra ser executado em até 24h, pode esperar tanto. Minutos depois, aparece o cara na sua mesa: "Então, aquele chamado é urgente. Preciso dele em 3 horas. Tem como dar uma agilizada?"

Duvido você conseguir argumentar que não consegue cumprir as tais 3 horas. O semblante do amigão – sim, essas pessoas se julgam suas amigas de infância, chegam dando aquele tapa no seu ombro, passando a mão na tua cabeça como se faz com aquele sobrinho sacana de 7 anos – passa para uma expressão de assustado, um espanto gélido. "Como assim, bróder? Estou contando com isso pra conseguir terminar meu trabalho!". Argumentar que há uma fila e que alguém veio, 10 minutos antes, com a mesma história é a coisa mais inútil da terra. Passamos aí pra próxima fase: as ameaças.
O amigão, que agora se encolhe tal qual animal atacado, agora se comporta como alguém que você destratou por dias, mesmo não sendo verdade. É hora de sacar as armas – pensa.
"Gigante, não dá pra ser assim, cara. Você é muito radical! Dá um jeitinho aí, isso é muito importante. Você precisa vestir a camisa, como eu faço!"
Legenda: Chantagem corporativo-emocional. Pensam que cola, ainda nos dias de hoje.
Diante de uma nova negativa, a coisa muda pra chantagem descarada:
"Cara, vou ter que acionar o Seu Pereira. Aí você vai ter que dar prioridade."

Não importa o nome: o Seu Pereira é sempre algum tipo de gerente, o conhecido como pica grossa do projeto (mesmo que seja mulher, não me entendam mal), que todos falam em acionar nessas horas. Mesmo que nem saibam quem é cara.
Legenda: Se lembra quando seu irmão mais novo ou aquele primo, queria o seu brinquedo preferido e você não queria emprestar? O que ele fazia? "Vou falar pra sua mãe se você não me emprestar!" Lembra? É igualzinho, só que em vez de apelar pra alguém que vai te dar uns tapas, eles apelam pra alguém que vai atacar um lugar BEM mais dolorido: seu bolso.

Aí, você que perdeu um SENHOR tempo discutindo com o amigão, recebe a TROLHA pra resolver em tempo recorde. Só que além disso, tem que explicar pro Seu Pereira o que é que você vai fazer, pra ele poder aprovar…
O mundo corporativo nada mais é que aquela brincadeira de rua, da sua infância, lembra? Cada um leva um brinquedo, que é pra gerar uma brincadeira legal pra turma toda. Alguns não levam brinquedo e apelam pra mãe ou pro pai do amiguinho, que não quer nem saber: "Empresta o brinquedo pra ele, Gigante!" – gritam. Outros, apelam pros meninos mais velhos da rua de baixo, que ameaçam fazer você se arrepender de não emprestar.
A pergunta que fica: o que você está fazendo pra melhorar as suas brincadeiras?