Você não morre mais! Falei de você hoje!

Acabei de ouvir a frase “Você não morre mais! Falei de você hoje!” de uma pessoa que falava ao telefone perto de mim.

Parei pra pensar, num daqueles devaneios simplistas: imagina se só falar de uma pessoa fosse suficiente para ela “não morrer mais”?
Seria sensacional!
De um ponto de vista, falaríamos todos os dias das pessoas que amamos e admiramos. Teríamos cada vez mais pessoas falando de seus pais, irmãos, esposas, maridos, filhos e filhas… Falaríamos muito mais de poetas, músicos, artistas, falaríamos sem parar de tanta gente boa e querida!
Suassuna, por exemplo, ainda estaria entre nós. Aquela avó que fazia aquele bolo delicioso com café quentinho nas tardes chuvosas, o guitarrista que pedia uma chance para a paz, enfim, tanta gente querida – e de quem sentimos muita falta no mundo de hoje – ainda estaria por aí, alegrando e complementando nossas vidas.
Por outro lado, um lado mais obscuro, condenaríamos essas grandes pessoas a uma vida eterna, reanimada constantemente pela idolatria de desconhecidos, no caso dos grandes artistas em relação a seus fãs. E dá pra ser pior: naqueles nossos desejos mais sinistros, acabaríamos falando de assassinos e ditadores mundialmente conhecidos, que ainda estariam circulando pelo plano terrestre.
Imagina só: em vez de shows com Paul McCartney, teríamos os Beatles em São Paulo. Sem Lennon, claro, que largou a banda. Bom, possivelmente, sem McCartney que, creio, teria largado os dois outros membros dos fab four para seguir a sua promissora carreira na ocasião. É, acho que seria um fiasco o show de Ringo e George com bandas de apoio, enquanto Macca faria seus lindos shows lotados e caríssimos. E além disso, John estaria em algum lugar se apresentando com Yoko, talvez até com Sean no palco. Difícil de imaginar, né?
Já imaginou a Bahia ainda sob o poder de ACM? Ou ainda, Júlio César, o imperador romano, ainda colocando fogo em cidades pela Europa afora? Pois é, melhor nem cogitar.
Acabaríamos lendo jornais com matérias com títulos do tipo “aquele que não falamos o nome foi encontrado dirigindo um carro com 7kg de drogas na fronteira do Paraguai” só pra não arriscar manter o safado vivo.
Isso contando com o senso comum de que sabemos bem distinguir os bons dos maus, os que merecem viver dos que não merecem tal privilégio.
A verdade é que a beleza da vida está em sua finitude e na saudade que esta finitude pode gerar, além da mensagem implícita desta finitude:
Aproveite cada momento ao lado de quem você ama, afinal, a partida definitiva é certa.