Cidade seca

Era mais um dia normal. Acordei 6 da manhã para ir trabalhar, já contando com o trânsito diário.

A fila de carros, que parecia interminável todos os dias, hoje estava aparentemente menor. Ganhei uns 15 minutos no trajeto, soava quase como um milagre. Deixei o carro no estacionamento e segui pro metrô. A vida se tornava muito mais prática de metrô – que o diga aquele rapaz sendo processado por desvio milionário de dinheiro.

Com os 15 minutos ganhos, tinha uma brecha pra tomar um café decente na avenida: numa das principais avenidas da cidade, encontrar um bom café era – paradoxalmente – um pouco complicado naquela hora da manhã. 6:40, as luzes ainda acesas para evitar a total escuridão, a pesar do sol já ter raiado, eu sabia bem onde iria. Eu sei, era a cafeteria da moda, onde cobram mais caro só pelo bom dia que te dão. Mas o espresso… esse sim era um espresso de verdade.

Na porta de vidro, segurança e balconista conversavam, sentados em banquetas de metal. Ao me aproximar, notei na porta corrediça um bilhete: “devido à falta d’água, não estamos servindo café e bebidas à base de café. Obrigado pela compreensão”.

Aquilo não estava no meu roteiro e acho que até por isso me pegou tão de surpresa. Ainda bem que, 30 metros adiante, havia outro café. Não tão bom, claro, mas era minha alternativa. No segundo café, a falta d’água havia sido substituída pelo que parecia café com leite jorrando da torneira: com a interrupção do abastecimento noturno, pela manhã toda a sujeira da tubulação municipal parecia sair pela torneira do estabelecimento. Não me pareceu uma opção saudável.

A situação seguiu assim por mais um ou dois bistrôs que visitei na avenida. No terceiro, quase sem esperança, perguntei pelo espresso e ouvi que estavam preparando cafés com água mineral – o que obviamente encarecia o café, já que a água tinha de vir de caminhão desde o interior de Minas Gerais. Água “importada”? Aí me lembrei que a gasolina e o diesel haviam aumentado.

Tomei uma banqueta, perguntei o preço: o já caro café de $4,80, com a água mineral “importada”, o aumento dos combustíveis e o já conhecido ágio cobrado em situações de stress sairia por $9,60. Simplesmente o dobro do original, graças à seca. Desisti.

Decidi ir para o escritório. No caminho, na banca de jornal a manchete: “Governador afirma: Não há motivo para preocupação. Não haverá rodízio de água!”.

Queria eu dizer ao governador: não me preocupava com a falta d’água até ontem. Ontem tínhamos café, quentinho, animador, sabe? Agora, sem café?

SEM C-A-F-É!?!

Sr. Governador, temos um grande problema!