Saudade dói

Sabe, no começo, eu achei que não fosse sentir a sua falta. Diziam que aquela sensação de bem estar, toda aquela animação que eu sentia, era uma coisa ruim. E eu discordava.

Tinha você comigo todos os dias. De manhã, já acordava pensando em você. Precisava, de você. O dia todo, procurava por você em bares, restaurantes, até no trabalho. E esse foi o sinal de que era demais.

Te larguei. Assim como quem se livra de uma roupa velha, te tirei da minha vida como tantos me aconselharam.

O primeiro dia sei você correu bem, até a hora do almoço. Foi quando comecei a sentir coisas estranhas, desde simplesmente sentir falta de ter você nos meus lábios, do calor que você incitava dentro de mim, até tontura e dores de cabeça. Eu nunca imaginei que estar sem você poderia me afetar tanto assim.

Daí para frente, eu comecei a me sentir péssimo. Acordava com dor de cabeça, o simples chacoalhar do carro numa curva mais rápida já me causava enjôo. Nenhuma música me satisfazia, o rádio parecia tratar meus ouvidos com alfinetes, torturando-os até que atingissem meu cérebro.

Passei a andar de óculos escuros até em ambientes fechados, o que levava as pessoas a questionarem o que eu estava fazendo com as minhas noites. No trabalho, já cogitavam que ou eu estava vivendo em baladas e bares, ou estava trabalhando em outros projetos.

Até minha mulher já estava tendo dúvidas. Mesmo sabendo que eu ia para casa direto depois do trabalho e ali ficava até o dia seguinte, ela estranhava as olheiras que se formavam em meu rosto. Chegou a dormir na sala, dando desculpa que adormeceu vendo tv, para vigiar se eu não saía de casa, escondido, na madrugada.

Mesmo que eu quisesse, não conseguiria. O cansaço ao fim do dia estava me matando. Lenta e dolorosamente.

A dor de cabeça constante, os olhos ardendo e a falta de fome se juntaram ao mau humor. Estar sem seu calor, sem seu cheiro, acabava comigo física e mentalmente. Neste ponto, eu pensava em matar qualquer um que sequer ousasse pensar e fazer qualquer som perto de mim. Falar comigo então, era crime passível de pena de morte por espancamento. Pena que eu imaginava aplicar.

Foi aí que me dei conta que eu não podia, simplesmente, me livrar de você. Você já fazia parte de mim, da minha rotina diária…

Foi quando liguei e contei para minha esposa o motivo de todo o mau humor, o cansaço e o ódio.

Ela sorriu e disse:

– Amor, você não pode parar de tomar café assim, da noite pro dia!

Agradeci, desliguei e fui até o boteco da esquina:

– Um duplo, por favor. Preto como a noite.