Tecnodependência

Acordei hoje cedo, 5 da manhã, como faço todos os dias.

Quinta feira, semana quase acabando. E ô semaninha difícil, viu?

 

Ontem cheguei em casa e, ao descer do carro, notei que havia esquecido a jaqueta no trabalho. Tudo bem, era só esperar o dia seguinte para recuperá-la. Ao menos, achei que seria assim, tranquilo. Aquilo ficou martelando na minha cabeça, imaginava se iria encontrar a jaqueta de couro sintético, que nem era tão cara assim, mas me era cara.

De fato, estava correto no meu pensamento inicial. Ao chegar ao escritório ela estava lá intocada, exatamente onde deixei.

 

Sendo assim, decidi retomar a rotina. E-mails conferidos, nada de novo. Era hora então de ir até a copa tomar um café e comer alguma coisa.

Caminhei os poucos metros que me separavam da máquina de café com uma sensação estranha, mas creditei ao sono e ao cansaço. Cheguei até a máquina, apertei o botão e resolvi dar uma olhada no site de notícias pelo celular…

 

– Droga! Deixei o celular na mesa.

 

Voltei pelo corredor com o copo de café fumegante nas mãos, confesso, com alguma pressa. Na mesa, nada do aparelho.

Procurei de novo nos bolsos: camisa, calça, blusa, nada. Na mochila, embaixo de algum papel… Não estava lá.

Foi quando me toquei que venho todos os dias usando o GPS do bendito celular para evitar o trânsito da capital, mas não me lembrava da voz chata da menina do Google Maps me dando ordens a cada esquina.

 

Num lampejo de memória, me lembrei: esqueci de tirar da tomada quando saí e deixei o celular no quarto! Me senti um perfeito idiota por esquecer algo tão rotineiro.

 

Bom, não podia deixar isso me afetar, não é? Decidi ler as notícias no laptop. Da empresa.

 

Bloqueado.

 

Tudo bem, vou dar uma passada no Facebook para ver o que o pessoal anda comentando… Cadê o celular? Merda!

 

Já vi que seria um dia difícil, principalmente pelo fato de ter muito tempo livre no projeto atual.

 

Tudo bem, o dia passa rápido. Já eram 8:35 da manhã.

Às 8:42 eu já tinha tido 3 síncopes, 6 crises de ansiedade e já tinha retornado à copa para tomar outro café. O dia acabara de ganhar 48 horas.

 

Às 9 da manhã, tomar outro café estava fora de cogitação. Me lembrava que tinha uma reunião hoje, mas com quem? A que horas?

Aposto que o celular estava em casa rindo da minha cara por tê-lo esquecido lá com todos estes detalhes.

 

A manhã parecia não passar e eu me lembrei que precisava falar com meu irmão sobre o fim de semana.

Bati a mão no bolso para chama-lo no Whatsapp e… merda! De novo! Ia ter que ficar pra depois.

 

E o dia passava assim: sem informações, sem rede social, sem internet… Me sentia isolado do mundo.

Me senti um idiota quando, de repente, me peguei roendo as unhas. Já tinha parado com isso lá na década de 80 e me via repetindo essa idiotice.

Cada unha que via sendo separada do meu dedo, imaginava um tuíte sendo escrito: “Alguém mais entediado aí?”

 

Bom, resolvi ligar para a minha mãe e ver como ela estava. Peguei o telefone na mesa e comecei a discar o número do telefone dela… da década de 80. Eram 7 dígitos ainda e eu só me dei conta disso quando o telefone começou a dar aquele sinal característico de conexão perdida. Seria possível que meu nível de isolamento do mundo estava tão grande que eu não conseguia sequer ligar para a minha própria mãe?

 

O desespero começava a aumentar.

 

– Já sei o que me acalma! Música!

 

Ideia idiota. Meu fone de ouvido estava na mochila, mas cadê o celular com os MP3?

Ainda bem que sou um cara com recursos: era só entrar numa rádio online… Se não estivesse bloqueado nos computadores da empresa.

 

Fiquei maluco. Passei a vigiar o relógio. Comecei a notar balanços diferentes no ponteiro dos segundos do relógio que ficava na parede.

 

As pessoas passavam pela minha mesa e ficavam olhando. Até tiraram fotos e… publicaram no Facebook.

Uma até passou por mim e disse que me marcou na foto. Pediu para eu curtir… Riu quando disse que esqueci o celular em casa.

 

Eu precisava acabar com aquilo, antes que acabasse atacando alguém.

 

Hora do almoço. Larguei tudo, comer iria me enganar um pouco.

No restaurante, logo na porta de entrada: faça check in e ganhe 10% de desconto! Parecia algum tipo de provocação.

Na mesa ao lado, 2 meninas nos seus vinte-e-poucos anos fotografavam o prato pra postar no Instagram. Era demais pra mim!

 

Comi feito um louco. Parecia que o mundo iria acabar no dia seguinte. Prato principal, sobremesa, suco… Tudo o que tinha direito.

 

Hora de voltar pro escritório e encarar a ressaca moral daquela refeição absurda. O peso do estômago me dava sono, que eu costumava curar com uma sessão de música pesada, o que não seria possível naquele momento. Recorri ao meu grande companheiro, o café. Espresso triplo, sem açúcar.

 

O dia transcorreu mais ou menos assim. A cada minuto, eu percebia como estava sendo escravizado por aquela tecnologia toda, uma dependência patológica de um pedacinho de plástico.

 

Voltei para casa, novamente, sem a moça do Google Maps falando besteira na minha orelha. Tomou o dobro do tempo, afinal, aquela chata não estava lá pra me avisar do acidente na rodovia, que eu poderia ter evitado.

 

Finalmente em casa! Aliás, a nova definição de casa é “onde o WiFi conecta automaticamente”. Temos agora algemas eletrônicas, senhoras e senhores.

 

Fui ao quarto tão rápido que pisei no rabo de um dos gatos e chutei o outro no caminho. Não conseguia sequer enxergar o que havia na minha frente, precisava chegar ao meu celular.

Depois de anos junto dele, um dia separado tinha sido traumático.

 

Peguei o aparelhinho do demônio e fui até a sacada do meu apartamento. Olhei para baixo e, num gesto rápido e firme, o lancei ao solo. Havia me libertado.

 

Os dias que se seguiram transcorreram de forma um pouco traumática. No começo, sofri o que chamo de smartabstinência, que cessou, gradualmente, nos dias seguintes.

Peregrinei por algumas lojas e resisti fortemente à sensação de comprar um moderníssimo e novo smartphone: troquei o antigo por um daqueles celulares simples, só de teclado numérico, sabe?

 

Os dias se passaram, a ansiedade baixou… Muitos riram, outros me parabenizaram, mas no geral, a maioria achou esquisito que eu, trabalhando com tecnologia desde a década de 90, tivesse desistido do celular. Era inimaginável para eles não ter o mundo na palma da mão, não postar fotos, não falar no Whatsapp… Aliás, muitos me encontravam na rua e perguntavam: “viu meu whats?”. Era quase como se a campainha do meu finado celular soasse, mas dessa vez, disparada por um chato que não dava sinal de vida presencial há tempos.

 

A vida seguiu e eu continuei muito bem. Deixei de usar Facebook, Whatsapp, Twitter e muitos outros serviços de internet móvel. Até a operadora achou estranho e andou me ligando, cheia de promoções, vantagens, descontos, toda aquela baboseira que conhecemos.

 

E no final, toda aquela crise passou. Só uma coisa me preocupa agora: a encomenda de meu novo smartphone que deve chegar amanhã. Me disseram que, com esse, é só girar o pulso que a câmera liga sozinha!